Daquela vez, James não queria apresentar o programa da tarde. Depois de quase dez anos na função, estava desanimado. Não só não achava decente convidar pessoas para exporem desgraças pessoais na televisão, como não aceitava o triste destino de, no regresso a casa, ter de passar no supermercado para comprar arroz, gel-de-banho e detergente da roupa.
Naquele dia, Charlotte estava entusiasmada por participar no programa da tarde. Embora desgastada emocionalmente por ter já contado a sua história várias vezes, considerava-a pedagógica, pelo que a partilha lhe parecia um dever. Mais importante ainda, ao participar naquele programa, teria a desculpa perfeita para não almoçar com uma amiga que, embora boa pessoa, levaria certamente para o almoço um tópico complexo e polarizador como a velocidade da internet.
Naquele dia, o programa da tarde correu lindamente: perante o ar tranquilo da convidada, o apresentador partilhou, em lágrimas, todas as suas angústias.
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