Números

Dominique e Francis já tinham trocado olhares quatro vezes, na pista de dança daquela discoteca. À quinta, Francis tentou a sua sorte.

— Desculpa a pergunta, mas concordas que aquele bar ali à frente está mal posicionado?

 — Porque dizes isso?

—  Porque obriga toda a gente a passar pelo meio da pista, o que deixa quem está no bar, à espera da bebida, um bocado desconfortável. Como aquele rapaz, que está ali a pensar porque é que toda a gente tem de passar pelo sítio onde ele está. Porque é que tem de levar encontrões. E porque é que alguns pacotes de bolachas trazem um número ímpar de bolachas, o que é bastante inconveniente para ele, que come sempre um número par.

— Curioso, não tinha reparado nisso. Mas também estou aqui atenta àquele casal que está a dançar ali ao fundo, como se mais ninguém existisse no mundo.

— Onde?

— Ali ao pé daquela entrada. Onde está aquele senhor a vender cerejas.

— Ah, sim. Curioso. Nenhum deles parece estar preocupado com as chatices do dia-a-dia. Como um número ímpar de bolachas.

— Exacto.

— Agora seria o momento em que eu diria o meu nome e tu dirias o teu. Mas aí estaríamos a desviar-nos dos temas relevantes.

— Sim, e eu também vou já embora. Não me conformo com o preço daquelas cerejas.

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