Claro, Claro

Veronika estava no café, a beber uma água com gás, quando o dono do café se aproximou da mesa.

— Dona Veronika… Como vai o seu novo livro?

— Está a andar bem, obrigado.

— Já está aqui a pensar no que vai escrever a seguir?

— Não. Estou a pensar no isolamento.

— Claro, claro. A escritora que se refugia no seu mundo imaginário, afastando-se da realidade…

— Não, é algo mais material.

— Claro, claro. A viagem para um lugar distante, outra cidade, outro país, quem sabe, onde estará a sós com a sua escrita, sem ninguém conhecido…

— Não. Estou a pensar no isolamento térmico do meu telhado. Não sei que tipo de telha escolho.

 — Claro, claro. Sabe que eu tenho um sobrinho que é bom nisso.

— Em isolamento térmico?

— Não, a escrever.

Os dois ficam quatro longuíssimos segundos em silêncio, até que o dono do café retoma a ideia:

— Escreve poesia surrealista e notas de encomenda.

— Notas de encomenda?

— Bem bonitas. Já a poesia é um bocado esquisita.

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