Reacção

— Então o que me tem a dizer sobre este primeiro ano connosco? — Perguntou Dubravka, directora daquele centro de investigação.

— Tem corrido quase tudo bem. — Respondeu Ernesto, cientista.

— Quase?

— Sim, tenho um pequeno conflito com o Helmut.

— O que aconteceu? Discutiram?

— Não, nada disso, ele é boa pessoa.

— Então?

— Olhe… a forma como ele come pão com queijo irrita-me.

— Pão com queijo?! Estamos a debater pão com queijo?

— Essa pergunta é de quem nunca viu o Helmut a comer pão com queijo. Assim que ele recebe o seu pão com queijo, no bar, ele separa as duas metades do pão, divide cada uma delas em quatro partes. Depois come cada um desses quartos, ou oitavos, no fundo, e, só no fim, come o queijo.

— E qual é o problema?

— Então nós somos pessoas da ciência, da racionalidade, e fazemos uma coisa destas, sem qualquer sentido? Não me conformo.

— Olhe, não sei o que lhe faça.

— Ainda bem que diz isso: eu sei. A senhora podia ter uma reunião com o Helmut sempre à hora do lanche. Assim ele era desviado e eu podia lanchar sossegado, sem ofensas destas.

— Você quer que eu invente uma reunião todos os dias?

— Eu não falei em inventar, eu falei em remarcar. Nós temos tantas reuniões, é só mudar a hora de uma delas.

— Desculpe, mas esse pedido é inaceitável.

— Pronto, pronto. Eu entendo-me com ele. Agora, se, por causa disso, ele ficar magoado, passar uns dias a remoer este assunto, acabar por dormir mal algumas noites e, um dia, por cansaço, se distrair, trocar uns reagentes, fazer uma mistura explosiva e termos um acidente catastrófico neste centro, o qual mudará para sempre a perspectiva da sociedade para os problemas que acontecem, todos os dias, nos bares das instituições, devido a formas estranhas de lanchar, não me responsabilize.

Dubravka desencostou-se da sua cadeira, apoiou os dois braços na mesa, juntou as mãos e perguntou:

— Ernesto, diga-me uma coisa. E peço-lhe que seja sincero. A que horas lhe dava jeito que eu tivesse essas reuniões?

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