Cá Estamos

Dois vizinhos encontram-se à entrada do prédio.

— Olá, Sr. Ziyad.

— Olá, dona Sandhya.

Depois de identificados pelo segurança, introduzem os cartões de identificação no leitor, inserem o código de 8 dígitos, que muda a cada 12 horas, e dirigem-se até à porta do elevador. Ao chegarem, Sandhya carrega no botão de chamada, o qual só responde por impressão digital autorizada, e inicia uma breve conversa de circunstância:

— Parece que esta semana vamos ter muito existencialismo.

— Ai sim?

— É verdade. A dona Ioana ouviu na rádio que esta semana ia haver mais pessoas a debater a possibilidade de a existência preceder a essência.

— Olhe, não sabia.

— É verdade. E isto mexe sempre com o conceito de sentido da vida.

— Pois, isto do existencialismo é sempre uma chatice. Mas, também, estamos no tempo dele. Já sabemos que nesta altura do ano… Por um lado, até é bom para a agricultura.

— Para a agricultura?

— Sim, um cunhado meu tem uma pequena horta e, às vezes, anda de volta das couves, entretido a pensar no sentido disto tudo.

— Pois, pois, também ajuda.

O elevador chega. Os dois entram e Sandhya carrega nos botões dos respectivos andares.

— Mas parece que para a outra semana vamos ter fenomenologia.

— Olhe, isso é que já é mais chato: quando está para mudar para fenomenologia, começa-me a doer o joelho esquerdo.

— Isto da idade…

O elevador pára no 3.º andar, onde Ziyad sai para o seu jeitoso T3. Sandhya só sairá no 8.º, onde existe um portal para uma dimensão onde é ministra das Infra-Estruturas.

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