Sapatos

Como era habitual à quinta-feira, Fabián publicou uma crítica de cinema num jornal:

“Janet, uma empresária que fez fortuna no fabrico de calçado, decide deixar a gestão da sua empresa aos filhos e embarca numa jornada em busca da felicidade. É este o ponto de partida do filme ‘Outro Chão’, que estreou nas salas de cinema na semana passada.

E o que parece ser um ponto de partida promissor acaba por concorrer para um desastre: o filme não demora a perder-se numa espécie de tratado sobre a busca da felicidade e o papel da memória nesse processo, relegando para segundo plano questões centrais como a quantidade de pavilhões que compunham a fábrica de calçado de Janet, qual o processo mais usado na fixação da parte superior do sapato à palmilha e à sola, e, não menos importante, se, no jantar retratado logo no início do filme, Janet está a comer bife de frango ou de peru.

Este desastre inevitável ainda aparenta sofrer uma ligeira correcção de trajectória quando, na cena em que Janet está a discutir com o filho mais velho, um assistente de realização aparece no plano a pedir que se despachem, porque o realizador, no caminho para casa, ainda tem de passar na lavandaria.

Este momento constitui, no entanto, fraco consolo, na medida em que o filme, no geral, não justifica uma ida ao cinema. Não quero adiantar muito mais, até porque muitos dos leitores deste texto, tal como eu, ainda não viram o filme.”

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