Rotina

Um pintor é entrevistado dias antes da abertura da sua mais recente exposição.

— Este quadro, por exemplo — apontou a jornalista — vemos um homem a entrar, meio derrotado, quase curvado, na porta de um prédio. Podemos dizer que está aqui representado o peso insuportável da rotina?

— Não, esse quadro é sobre o meu vizinho do 5.º esquerdo.

— O seu vizinho do 5.º esquerdo?

— Precisamente. Ele é uma pessoa difícil. Está sempre a remoer, a tocar à campainha dos vizinhos para reclamar do barulho, a vir às escadas fazer olhares reprovadores, a pôr avisos na entrada do prédio e a contestar muitas das metodologias da biologia celular.

— Mas é ele representado na pintura?

— Não, o homem na pintura é de estatura média. O meu vizinho é muito alto.

— Então em que é que ele está representado?

— No porta-chaves do homem que aparece na pintura.

— No porta-chaves?

— Sim. Se reparar, é uma bola de basquete.

— E o seu vizinho joga basquete?

— Não, ele já é homem de sessentas.

— Então jogou basquete quando era novo?

— Acho que não. Mas, como eu já disse, ele é muito alto. Podia muito bem ter jogado. Se calhar, tinha sido um bom jogador. Chato, na mesma, mas bom jogador.

— E a parte de ele ser má pessoa, onde é que está representada?

— Está a ver aquele quiosque em segundo plano?

— Sim.

— O homem em frente ao quiosque sou eu. A fazer de conta que leio as primeiras páginas dos jornais e a fazer tempo para o meu vizinho entrar e eu não ter de me cruzar com ele na entrada do prédio.

— Bom, confesso que esta leitura é surpreendente. Não esperava ouvi-lo falar do seu vizinho do 5.º esquerdo.

— E digo-lhe mais: ele vai estar representado no meu próximo quadro. Mesmo ele, sem metáforas. Sentado, sozinho, nas escadas do prédio.

— O quadro vai ser sobre ele ser uma figura opressiva sobre os vizinhos?

— Não, nem pensar. O meu trabalho não gira em torno do meu vizinho do 5.º esquerdo. Era o que faltava.

— Então vai ser sobre o quê?

— Sobre a solidão nas sociedades modernas.

Deixe um comentário