Dor

Selma e Andrzej contracenavam em palco, num ensaio de uma peça que retratava tempos medievais:

— E que angústia, que dor é esta que nos prende ao chão? — Perguntou Selma.

— Dor nos pés. Já não aguento estes sapatos. — Respondeu Andrzej.

— Dor nos pés? Sapatos? — Perguntou Patrice, o encenador.

— Sim, estes sapatos apertam-me os pés.

— E só dizes agora?

— Olha, Patrice, eu não tenho de estar aqui a fazer de conta que sou outra pessoa.

— Bom, na verdade…

— Não é isso. Estou a falar de ser honesto contigo. Sabes? O problema não és tu, sou eu.

— O que se passa?

— Olha, eu não quero estar aqui a comentar o teu trabalho. Não é esse o meu papel e jamais te faria isso. Mas não concordo com o tom que estás a dar ao texto, com a direcção que estás a dar aos actores, com o guarda-roupa, com a iluminação…

— Só falta dizeres que o cenário está mal. O robô, por exemplo.

— Não, o robô está óptimo. É a única coisa certa aqui. Bem sei: a peça é sobre o período medieval. Mas o robô tem uma espada e um escudo com um brasão, passa bem despercebido. Nenhum espectador o vai estranhar em palco.

— Vá lá, uma coisa está bem.

— Já estes sapatos… Não aguento estes sapatos!

— Isso parece-me claro.

— E a colocação de voz? É insuportável colocar a voz a toda a hora. Se os senhores feudais tivessem de colocar a voz desta maneira, doavam as propriedades e iam viver para a floresta. Ou, pior, iam trabalhar!

— Mas isto é uma peça de teatro, é suposto os actores colocarem a voz.

— Olha, não vale a pena discutir. Se calhar, esta é uma boa oportunidade para eu me habituar às adversidades.

— Sim, podes aproveitar para trabalhar esse teu lado intempestivo.

— Pois posso. Mas como o produtor é meu cunhado, prefiro fazer um telefonema e trocar tudo. Encenador, actores, cenários, tudo. Até os sapatos. Só fico eu. E o robô. E ainda lhe ponho uma armadura.

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