No final de mais uma temporada, Günter, treinador de futebol, é entrevistado:
— Como é que prepara os jogos? — Perguntou Malika, jornalista.
— Há uma abordagem minuciosa, abrangendo vários cenários possíveis de um momento que é sempre difícil para a nossa equipa: a viagem de autocarro.
— Mas… e a táctica?
— A táctica… Os jogadores já treinam bastante. Agora, o autocarro… É demasiado aborrecido para eles.
— Como é que eles lidam com esse momento?
— Tentam minimizar os efeitos negativos. Há quem veja filmes, quem ouça música, quem jogue às cartas, quem durma… O nosso lateral-esquerdo escreve ensaios sobre a fragmentação dos sistemas partidários contemporâneos.
— E todas as viagens são complicadas?
— Não: as de regresso são sempre mais leves.
— Mesmo depois de jogos como aquele em que perdeu 4-0 no terreno do seu grande rival, tendo, com isso, perdido a liderança do campeonato, tendo visto o treinador adversário a afirmar, em conferência de imprensa, que a vossa equipa, em campo, parecia um grupo de turistas pouco instruídos e com jet-lag a verem quadros e esculturas num museu de arte contemporânea, e tendo os vossos adeptos entoado cânticos que colocaram em causa a vossa aptidão para contarem piadas em festas de aniversário?
— Sobretudo depois desse jogo. Depois de um jogo tão difícil e de um momento de grande frustração, nada como uma viagem de regresso.
— Já que fala em frustração: como é a gestão emocional do grupo?
— É simples: os meus jogadores mantêm-me sempre concentrado e motivado. Nem que tenham de ser mais duros e, aqui e ali, repreender-me. Mas já começo a ficar cansado deste trabalho, sabe? Já são quatro anos neste clube, quatro campeonatos ganhos. Nunca pensei chegar aqui.
— Qual era a sua perspectiva, quando chegou ao clube?
— Era ficar seis semanas.
— Só seis semanas?
— Só, não: era precisamente o tempo que durava o curso que eu vinha dar no clube.
— O curso?
— Sim.
— Qual era o tema? Alto Rendimento?
— Não, Ciência Política.
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