Vizinhança

Mais uma segunda-feira naquele centro de reparações de electrodomésticos. Slavenka estava a reparar uma televisão, quando Stephen a interrompeu:

— Estava ali no armazém a arrumar o material que chegou hoje de manhã e tive uma dúvida. És capaz de me conseguir ajudar.

— Stephen, eu tenho de reparar esta televisão até quarta-feira, porque depois ainda tenho outra para reparar até sexta.

— Lá está, eu já vim ter contigo por saber que estás com mais vagar.

— Diz lá o que queres.

— Como é que eu pergunto ao meu vizinho do 4.º andar se ele é espião?

— Espião?

— Sim, espião.

— Porque é que achas que ele é espião?

— Porque noutro dia cruzei-me com ele no elevador e ele vinha ao telemóvel. E não percebi nada da conversa, era tudo em código.

— Se calhar, não queria ter uma conversa mais pessoal à tua frente.

— Certo, mas, passado algum tempo, vi-o a entregar uma capa de arquivo a outro tipo, no jardim lá ao pé de casa.

— Se calhar, eram coisas do trabalho dele.

— Certo, mas, passado algum tempo, vi-o a entrar no prédio às duas da manhã, com uma pistola com silenciador, como nos filmes. E tinha a roupa manchada de vermelho, era claramente sangue.

— Realmente, duas da manhã é de suspeitar.

— Pois… Uma coisa é certa: entre a que horas entrar, com ou sem pistola, é uma jóia de vizinho, não incomoda ninguém.

— Ao menos isso. Mas porque queres saber se ele é espião?

— Para ter conversa de circunstância. Se me cruzar com ele no elevador, posso dizer “cá estamos, mais um dia de trabalho, eu a reparar electrodomésticos, o senhor em intrigas complexas, missões arriscadas, assassinatos encomendados e outras aventuras pelos caminhos nem sempre previsíveis da política internacional”.

— Sim, é verdade, dá sempre jeito.

— E eu gosto de saber estas coisas. Por exemplo, o meu sogro lidera um grupo de crime organizado.

— A sério?

— Verdade.

— E isso não te incomoda?

— Incomodou um bocado no início, mas ele convida-nos muitas vezes para almoçar lá em casa ao domingo. E faz uns assados de categoria.

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